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sexta-feira, 16 de julho de 2010

Saudade

Sinto saudade de você, vamos conversar? Eu sei que ando meio calada. Talvez seja uma forma de protesto infantil e bobo, pelas vezes em que senti que você não estava prestando atenção em mim. Pois é, ando chateada com algumas coisas. Sempre me preocupei em fazer o que era certo, mas parece que tenho feito tudo errado. Nunca me senti assim. Sabe, eu estava lembrando de quando eu era criança. De repente senti uma vontade de voltar ao passado. Lembra de como eram meus dias?

Primeiro começava com os sonhos que se confundiam com a realidade. Ora abria, ora fechava os olhos, e aos poucos eu ia acordando. O som da casa soava como um despertador delicado e aprazível. Eu sabia que mamãe já estava acordada preparando o almoço para mais tarde. Ouvia o chiado da panela de pressão misturado às músicas que tocavam na radiola de papai. Reparava no vapor das panelas que embaçava os vidros das janelas trancadas pelo frio. E enquanto isso, eu ia despertando. Depois, minha irmã saída de sua cama e vinha se deitar comigo. Sentia o seu nariz gelado e sua respiração fazendo cócegas em meus ouvidos. Ela se enroscava em mim de tal forma, que ficava meio apertado. E eu sempre reclamava, dava de incomodada, mas, no fundo, eu gostava daquele aperto carinhoso. Aí, vinha mamãe na tentativa de nos acordar. E eu ficava ali, deitada entre as duas na cama, que nessa hora parecia tão pequena. Mamãe exalava um cheiro de ervas finas e de temperos fortes. Sua roupa cheirava a sabão em pó e seus cabelos, um perfume suave de lavanda. Mesmo com os meus olhos fechados, sabia identificar suas mãos nas cócegas que eu recebia embaixo das cobertas. Eram mãos quentes, fortes e pesadas, ao contrário das mãos de minha irmã que estavam sempre geladas. Por último papai aparecia e sentava-se na beira da cama por falta de espaço. Ele acariciava meus pés e puxava minhas meias, ao mesmo tempo em que assobiava hinos como trilha sonora para aquele momento tão especial. Não havia outra forma de continuar dormido. Rendia-me à bagunça e dava risadas de prazer. Ao final de tudo, papai saía da cama, puxava as cobertas e nós gritávamos de frio. Como se não houvesse alternativa, saía correndo ao banheiro para tomar banho antes que meus dedos congelassem. Corria cambaleando de sono e com os pés descalços. Ah!... Como era gostoso.! Como era tão bom...
E assim começavam os meus sábados de forma tão igual e tão diferente. Digo, igual para mim, diferente para muitos.
Sinto saudades desses dias. Sinto saudades do meu papai, da mamãe e de minha irmã. Também sinto saudades de você. Faz tempo que não escuto o som da sua voz. Tenho precisado muito do seu abraço. Onde você está? É verdade mesmo que está sempre perto de mim? Mesmo agora? Aqui?
Tenho contado inúmeras histórias de experiências lindas de quando eu era criança. São lembranças de uma vida tão simples e bonita, de um passado tão fiel...Jogava-me em seus braços e sabia que tudo que eu fazia estava de acordo com a sua vontade. E hoje? Por que, agora, tenho tanto medo? Onde comecei a duvidar e deixar de ter fé em você? Como tudo começou?Por que não tenho mais nenhuma boa historia contigo? O que está acontecendo?
Sinto saudade de você, papai do céu. Você também, não é?


(As canções abaixo me lembraram aquela época)

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