Eu e o barquinho
Era meu último dia de aula. Enfim, férias. Cheguei da escola e fui correndo para o meu quarto. Abri meu guarda-roupa e separei minhas coisas para a tão sonhada viagem. Peguei meu álbum de figurinhas, minhas caixinhas de fósforos, duas bonecas, um diário e guardei tudo dentro de uma mala. Saí pela casa gritando:
- Mãe! Pai! Minha mala já está pronta para a viagem!
Mamãe estava na cozinha quando gritou:
- Nossa, filha! Mas ainda falta uma semana!
Pois é, ainda faltava uma semana. Acontece, que a tia Maria tinha nos convidado para passar as férias no seu sítio no interior da cidade. Eu fiquei muito feliz e ansiosa ao mesmo tempo, pois lá era o lugar mais legal que eu costumava passar as férias. Era como se ele fosse encantado. O vasto campo verde, o cheiro da terra, o leite coalhado e as histórias dos meus tios no final da tarde me fascinavam. No sítio tinha cavalos, galinhas, porcos, passarinhos e tudo quanto era bicho. Na minha mente ainda restavam as lembranças das muitas aventuras que passei da ultima vez que estive lá. Papai tinha prometido que, desta vez, ele deixaria eu andar à cavalo. Até contei para todo mundo na escola e meus amigos ficaram impressionados.
Uma semana se passou e chegou o dia da viagem. Com tudo pronto, saímos de casa quando o sol ainda estava nascendo. No caminho, muitas coisas engraçadas aconteceram. Papai tinha inúmeras brincadeiras para distração, e assim, a viagem ficava super agradável e não víamos o tempo passar.
Anoitecemos na estrada. Lembro-me de um momento fantástico, quando fiquei olhando o céu pelo vidro do carro. Admirei aquelas estrelas que pareciam ainda mais brilhantes como nunca tinha visto. Eram tantas delas que, na tentativar de contá-las, caí num sono profundo. Quando abri os olhos já era dia e ainda estávamos na estrada. Eu não agüentava mais. Queria chegar logo e a cada dez minutos eu perguntava:
- Pai, tá chegando?
- Sim, filha. Estamos quase.
E finalmente chegamos. Papai estacionou o carro, tiramos nossas malas e saímos andando.
- Mãe, onde está o sítio da tia?
- Está logo depois do lago, filha.
Eu não estava entendendo nada. Não lembrava deste lago. No entanto, mal tive tempo para pensar, quando senti meu pai me colocando dentro de um barco para que pudéssemos atravessar o lago. Mas eu fiquei com medo daquilo tudo e comecei a chorar. Papai olhou para mim e disse:
- Filha, porque você está chorando?
- Papai, eu não quero entrar neste barco.
- Por quê?
- Eu estou com medo, papai. Estou com muito medo. – eu disse enquanto limpava as lágrimas do rosto.
Meu pai ajeitou o meu cabelo, apertou-me em seus braços e disse:
- O papai está aqui. Você não precisa temer.
Minutos depois, atravessamos aquele imenso lago e chegamos no sítio dos meus tios.
Eu já senti muito medo na minha vida. Medo do futuro, medo do presente, do meu passado... Medo de não conseguir vencer a tentação. Medo de morrer, de viver...Medo do medo. E a vida é cheia de coisas que nos ameaçam constantemente. Sim, eu sei que no mundo eu terei aflição, então, é só confiar em Deus, certo? Mas a que ponto este medo interfere na minha confiança em Deus?
Seria o medo uma falta de fé? Cegueira?
Não sei. Mas assim como minha própria história conta, atravessei o lago nos braços do meu pai. Eu estava com muito medo, mas atravessei mesmo assim, graças ao meu papai que me confortou. Então, acho que é normal sentir medo, mesmo confiando em Deus. Difícil é aceitar que ele nos conduza, pois entramos em desespero antes mesmo de pararmos para ouvir a sua voz.
E eu sei. Eu ouço a voz de Deus me chamando todos os dias. Ele me convida a confiar nEle e deixar que Ele me carregue no barco da vida, para enfrentar o lago das tribulações. Ele me diz: "O papai está aqui, vou te apertar nos meus braços e não deixarei que nada de mau aconteça." E ainda com a voz bem baixinha Ele me faz uma promessa: "No final desta travessia, haverá um sítio encantado onde jamais haverá pranto ou dor. Lá, todos os dias nós teremos inúmeras aventuras e viveremos por muito e muito tempo. Fica logo alí, vamos?"

1 comentários:
é.. preciso sentir essa segurança de que tenho um Pai me levando nos braços...... as vezes tenho medo de estar só.
suas histórias sempre tocantes elinha.. continue transmitindo a mensagem.. bjs.
Postar um comentário